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os gurus estão matando o mercado

Chris Paes · 15 de ago. 2026

os gurus estão matando o mercado

Os gurus de marketing estão destruindo o mercado, e talvez o problema nem seja exatamente a existência deles, mas o que eles fizeram com a percepção que as pessoas têm sobre marketing e sobre quem vende conhecimento.

Todos os dias, milhares de pessoas compram cursos acreditando que o digital pode ser um caminho para mudar de vida. E, em muitos casos, pode mesmo. Tem gente construindo negócios sérios, criando produtos bons, ensinando aquilo que realmente sabe e ganhando muito dinheiro com isso. Não existe problema nenhum em transformar conhecimento em produto. A questão é que, quando você vende conhecimento, existe uma responsabilidade muito maior envolvida, porque a pessoa não está comprando apenas algumas horas de aula. Ela está colocando dinheiro, tempo, expectativa e, muitas vezes, uma esperança enorme naquela promessa.

O problema começa quando vender essa transformação passa a ser mais importante do que realmente entregar conhecimento. Quando o marketing do curso fica melhor do que o próprio curso. Quando a promessa precisa ser cada vez maior porque o conteúdo, sozinho, não sustenta a venda. Quando casos excepcionais são apresentados como se fossem resultados normais e quando um estilo de vida passa a ser usado como prova de que determinado método funciona.

E isso acaba contaminando um mercado inteiro.

Marketing é uma disciplina estudada há décadas dentro de universidades, empresas, agências e departamentos estratégicos. Existe pesquisa, teoria, método, história e uma quantidade absurda de conhecimento acumulado. Mesmo assim, para uma parcela enorme das pessoas, marketing virou sinônimo de guru de palco, dancinha, gatilho mental, promessa de faturamento e curso que promete resolver uma vida inteira em algumas semanas.

Essa associação é péssima para quem trabalha sério, porque a picaretagem nunca atinge apenas quem comprou um produto ruim. Ela cria desconfiança em relação a todos os profissionais daquela área. Depois de algumas experiências ruins, o empresário deixa de desconfiar apenas de um vendedor de curso e começa a desconfiar de consultor, agência, especialista, professor e de qualquer pessoa que fale sobre marketing.

Ao mesmo tempo, existe uma injustiça nessa discussão. A palavra “guru” virou praticamente um xingamento e, em muitos casos, existe motivo para isso, porque realmente tem gente ensinando o que nunca fez, vendendo conhecimento que nunca teve e pegando conceitos conhecidos há décadas para apresentar como método revolucionário. Só que existe também muita gente séria produzindo conhecimento, estudando, testando, ensinando e entregando resultado, e essas pessoas acabam colocadas no mesmo balaio.

Por isso, eu não acho que o problema esteja em vender cursos, criar produtos digitais ou ganhar dinheiro ensinando. O problema está quando a venda cresce mais rápido do que a competência e quando ensinar deixa de ser o objetivo principal para virar apenas a justificativa de uma próxima venda.

Talvez quem trabalha com conhecimento precise se perguntar com mais frequência se está realmente formando alguém capaz de pensar e caminhar sozinho ou apenas criando uma pessoa que vai continuar dependendo do próximo curso, da próxima imersão e da próxima promessa.

Porque existe uma diferença enorme entre ensinar e criar dependência.

Enquanto o personagem falar mais alto do que o conteúdo, enquanto a promessa for mais importante do que a entrega e enquanto marketing continuar sendo reduzido a fórmula, palco e espetáculo, quem trabalha sério vai continuar pagando a conta de quem descobriu que é muito mais fácil vender transformação do que realmente ajudar alguém a se transformar.

Chris Paes

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