Projetos
Estou criando um negócio digital — e descobrindo que o difícil não é começar
Chris Paes · 03 de ago. 2026

Depois de 15 anos trabalhando com marketing, eu decidi criar um negócio digital.
Essa frase poderia abrir mais um daqueles textos sobre liberdade geográfica, renda passiva e a maravilhosa possibilidade de trabalhar de frente para o mar com um notebook no colo. Só que não é sobre isso. Pelo menos não desse jeito simplificado, limpo e vendável que costuma aparecer na internet.
Criar um negócio digital pode até estar mais acessível. Fácil, não está.
Hoje existem plataformas para hospedar cursos, ferramentas para criar sites, sistemas para organizar comunidades e inteligências artificiais capazes de ajudar em praticamente todas as etapas da operação. Nunca foi tão simples colocar uma estrutura no ar. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir algo que as pessoas realmente percebam, compreendam e desejem acompanhar.
A tecnologia resolveu parte da execução. Ela não resolveu o posicionamento, a confiança, a diferenciação nem a capacidade de transformar conhecimento em uma proposta que faça sentido para alguém.
É justamente essa construção que eu quero documentar.
Um negócio que começou muito antes de existir
Eu trabalho no mercado publicitário há 15 anos. Nesse período, passei por departamentos de marketing, trabalhei em agência, abri a minha própria empresa, atendi clientes locais e nacionais, desenvolvi projetos, fiz planejamento, consultoria e gestão. Mais recentemente, também passei a atuar como professor universitário.
A educação, no entanto, não surgiu agora na minha trajetória.
Quando saí do meu emprego para empreender, eu tinha um projeto chamado Comunica. Minha intenção era desenvolver esse projeto, enquanto a agência funcionaria como uma estrutura capaz de me sustentar financeiramente durante a transição.
A vida, como normalmente acontece, não respeitou o planejamento.
A agência cresceu, ganhou clientes, responsabilidades e espaço. O Comunica acabou ficando em segundo plano. Em determinado momento, realizamos um evento que trouxe um prejuízo significativo, absorvido pela própria agência. Foi quando eu precisei olhar para os números e tomar uma decisão pouco romântica: não fazia sentido concentrar energia no projeto que estava gerando prejuízo enquanto outro negócio pagava as contas.
Foi a decisão correta naquele momento.
Mas isso não significa que a vontade de trabalhar com educação desapareceu. Ela continuou ali, atravessando projetos, cursos, aulas, coordenações e diferentes tentativas de transformar conhecimento em alguma coisa que pudesse existir para além do atendimento tradicional de clientes.
Algumas ideias não morrem. Elas apenas aguardam uma estrutura mais madura para conseguir nascer direito.
Por que construir um negócio digital agora
Nos últimos anos, a minha relação com a agência mudou. A estrutura foi reduzida de maneira proposital, enquanto eu passei a atuar mais diretamente com consultoria, estratégia, gestão e educação.
Ao mesmo tempo, algumas prioridades pessoais também mudaram.
Eu comecei a pensar com mais seriedade no tipo de vida profissional que gostaria de construir. Não apenas no serviço que eu queria oferecer, mas na estrutura necessária para que esse trabalho não dependesse permanentemente da minha presença física em uma cidade.
Eu e a Jéssica temos o desejo de poder trabalhar de diferentes lugares. Não como quem tira alguns dias de férias e responde mensagens escondido, mas como quem consegue viver durante alguns meses em outra cidade sem precisar abandonar o próprio trabalho.
Para isso acontecer daqui a dois anos, a construção precisa começar agora.
Liberdade geográfica não aparece quando você compra um notebook. Ela aparece quando o seu modelo de negócio deixa de depender de uma estrutura física, de uma operação local e de relações comerciais que só funcionam quando você está presencialmente disponível.
É uma mudança muito maior do que trocar um computador de mesa por um equipamento mais leve. É preciso repensar produtos, processos, canais, entregas, posicionamento e relacionamento com os clientes.
É preciso criar um negócio que caiba dentro do notebook sem se tornar pequeno por causa disso.
A transformação do Pega Essa Ideia
Eu já tinha um projeto chamado Pega Essa Ideia, criado inicialmente como uma série de eventos sobre comunicação, inovação, marketing e criatividade.
Durante a construção da escola, cheguei a pensar em criar outra marca. Mas, em algum momento, percebi que estava tentando inventar do zero aquilo que já existia diante de mim.
O Pega Essa Ideia já tinha história, linguagem, identidade e uma conexão real com a maneira como eu enxergo criatividade, marketing e educação. A marca já carregava uma estética mais próxima de mim, com referências ao rock, à provocação e à troca de ideias.
Em vez de abandonar essa construção para começar uma nova, decidi transformá-la.
O Pega Essa Ideia está deixando de ser apenas um projeto de eventos para se tornar uma escola criativa. Um espaço no qual eu, a Jéssica e outros professores poderemos desenvolver aulas, cursos, encontros e experiências ligadas ao marketing, ao conteúdo, à inovação e aos novos mercados.
Mas não queremos construir uma escola baseada apenas na quantidade de matrículas.
É evidente que todo negócio precisa crescer. O problema começa quando escalar passa a significar transformar pessoas em números que aparecem dentro de uma plataforma. Não queremos vender milhares de acessos para alunos que nunca conheceremos e que nunca terão qualquer relação com a comunidade que estamos tentando construir.
A intenção é criar uma escola humana.
Uma escola que utilize inteligência artificial, ferramentas digitais e novos formatos, mas que não abandone a conversa. Que aproveite a tecnologia para facilitar o acesso, sem transformar a experiência de aprendizagem em uma sequência de vídeos esquecidos dentro de uma plataforma.
O digital não precisa eliminar a proximidade. Pelo contrário: quando utilizado com intenção, ele pode permitir que pessoas geograficamente distantes participem de uma relação muito mais próxima com professores, alunos e profissionais que compartilham interesses semelhantes.
Nunca foi tão fácil colocar no ar. Nunca foi tão difícil ser relevante.
Boa parte da estrutura já está sendo construída.
Os cursos estão sendo organizados dentro da Hotmart. Uma comunidade no WhatsApp reúne pessoas que participaram dos eventos presenciais e que podem se tornar o primeiro público dessa nova fase. O Lovable está sendo utilizado para desenvolver a interface, o site, o blog e parte do sistema da escola.
Eu mesmo estou conduzindo grande parte desse processo, com apoio de consultorias, conversas e pessoas que ajudam a questionar as decisões.
As ferramentas permitem que uma pequena operação construa algo que, alguns anos atrás, exigiria uma equipe muito maior. Isso é extraordinário. Mas também significa que milhares de outras pessoas possuem acesso às mesmas ferramentas.
Uma plataforma não é mais um diferencial. Um site bonito não é um diferencial. Um curso hospedado não é um diferencial. Nem mesmo utilizar inteligência artificial representa, sozinho, qualquer vantagem competitiva duradoura.
Quando todo mundo consegue produzir, a vantagem deixa de estar apenas na produção.
Ela passa a estar naquilo que você tem para dizer, na forma como organiza esse conhecimento, na confiança que construiu, no público que compreende e na experiência que consegue oferecer.
Muita gente afirma que o mercado de cursos está saturado. Talvez determinados formatos estejam. Talvez algumas promessas já tenham se desgastado. Talvez as pessoas estejam cansadas de comprar conteúdos que nunca terminam e transformações que nunca chegam.
Mas enquanto existirem pessoas trabalhando, aprendendo, mudando de profissão, empreendendo e tentando compreender novos contextos, a educação continuará sendo necessária.
O desafio não é descobrir se existe mercado para educação. O desafio é construir uma proposta educacional que não trate o aluno como apenas mais uma venda.
O desconforto de abandonar o zero
A parte mais sedutora de um negócio acontece antes de ele entrar no mercado.
Enquanto tudo está no planejamento, qualquer resultado parece possível. Você abre uma ferramenta, organiza post-its, desenha jornadas, monta apresentações e imagina como será quando tudo estiver funcionando.
O planejamento aceita qualquer coisa.
O mercado não.
Quando o produto entra no ar, a abstração termina. Você deixa de imaginar milhares de alunos e passa a enxergar as primeiras poucas vendas. Deixa de pensar em uma grande comunidade e começa com algumas pessoas dentro de um grupo. Deixa de falar sobre crescimento e precisa convencer o primeiro cliente a confiar no que você criou.
O zero é confortável porque ainda protege o sonho.
Enquanto você não publica, não vende, não lança e não testa, pode continuar acreditando que tudo daria certo. O fracasso ainda não aconteceu porque a tentativa também não aconteceu.
O problema é que o sucesso também não.
Um número baixo pode doer mais do que o zero porque ele confronta a fantasia. Ele mostra que o mercado não vai entregar imediatamente aquilo que parecia tão óbvio durante o planejamento. É nesse intervalo entre o zero confortável e o primeiro resultado insuficiente que muitos projetos são abandonados.
Só que nenhum número alto aparece sem atravessar uma sequência de números baixos.
É preciso suportar o início sem transformar cada dificuldade em uma prova de que a ideia não funciona. Isso não significa insistir cegamente. Significa observar, ajustar, aprender e continuar construindo.
Começar pequeno não é o problema. O problema é usar o tamanho inicial como justificativa para desistir antes que o negócio tenha tempo de amadurecer.
A estrutura precisa vir antes da pressa
Uma das principais decisões desse processo foi organizar uma esteira de produtos.
Em vez de criar dezenas de ofertas desconectadas, a intenção é manter uma estrutura mais simples, com poucos produtos e uma progressão clara.
Na entrada, existem os conteúdos gratuitos e os eventos, que permitem que as pessoas conheçam o projeto, participem das conversas e entendam a maneira como enxergamos o mercado.
Depois, entram os produtos de menor investimento, como os cursos gravados. Em outro nível, aparecem as imersões, com uma entrega mais próxima e aprofundada. No futuro, conforme a marca estiver consolidada e a operação amadurecer, poderão existir produtos de maior valor e acompanhamento.
Não é necessário lançar tudo ao mesmo tempo.
Essa pressa geralmente nasce da tentativa de parecer maior do que o negócio realmente é. Cria-se uma prateleira enorme, uma operação difícil de sustentar e uma comunicação confusa. O empreendedor começa a vender muitas coisas antes de descobrir o que consegue entregar bem.
A construção do Pega Essa Ideia parte de uma lógica diferente. Primeiro, criar uma base. Depois, testar os produtos, compreender o público, fortalecer a comunidade e amadurecer a marca.
O objetivo não é construir uma máquina de vendas o mais rápido possível. É desenvolver um negócio capaz de continuar existindo quando o entusiasmo do lançamento passar.
Um negócio para sustentar uma vida, não uma fantasia
Eu não estou construindo esse projeto porque quero criar uma empresa gigantesca ou perseguir uma ideia abstrata de riqueza.
Eu e a Jéssica queremos viver bem, trabalhar com algo em que acreditamos, ter liberdade para conhecer outros lugares e construir uma rotina profissional que faça sentido para nós.
Isso pode parecer uma ambição menor em um mercado viciado em discursos sobre milhões, escala e dominação. Para mim, é justamente o contrário.
Construir um negócio coerente com a vida que você deseja exige uma clareza que muita gente evita. É mais fácil repetir a meta de faturamento de outra pessoa do que decidir quanto é suficiente para você. É mais fácil copiar o modelo de uma empresa enorme do que criar uma operação compatível com a sua personalidade, os seus valores e a sua maneira de trabalhar.
Eu não quero construir um negócio que me obrigue a viver uma rotina da qual eu precise fugir.
Quero construir uma empresa capaz de sustentar o tipo de vida que escolhemos. Isso não reduz a seriedade do projeto. Apenas define um parâmetro diferente de sucesso.
A jornada começou
Eu tenho experiência em marketing, conheço o mercado, já construí uma empresa, atendi clientes e desenvolvi projetos durante muitos anos. Ainda assim, criar um negócio baseado em produtos e educação exige que eu me prove novamente como empresário.
Prestação de serviço e produto são modelos diferentes. A lógica de aquisição, entrega, relacionamento e crescimento muda. A experiência ajuda, mas não elimina o desconforto de aprender alguma coisa nova.
Talvez seja justamente por isso que eu queira registrar essa jornada.
Não apenas para mostrar o resultado quando tudo estiver organizado, mas para compartilhar o processo enquanto ele ainda está confuso, incompleto e vulnerável. Mostrar as ferramentas utilizadas, as decisões tomadas, os produtos testados, os números baixos, os erros e as mudanças que inevitavelmente acontecerão.
O Pega Essa Ideia não está pronto.
E esse é o ponto.
Ele está sendo construído agora, enquanto as ideias encontram o mercado, os planos enfrentam a realidade e aquilo que durante muito tempo existiu apenas como vontade começa a assumir a forma de um negócio.
Daqui a dois anos, eu quero olhar para essa escola e perceber que a liberdade que buscamos não apareceu de repente. Ela foi construída em cada decisão tomada antes de estar confortável, em cada produto colocado no mercado antes de estar perfeito e em cada pequeno resultado que escolhemos não desprezar.
Porque o zero pode até ser confortável.
Mas ele nunca levou ninguém a lugar algum.

Escrito por
Chris Paes
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